Segunda-feira, 7 de Abril de 2008
O Chamamento do Mar

  Há dois anos perdi o meu irmão nesta mesma falésia onde hoje me encontro. Dias antes da sua morte a sua namorada deixou-o. A rapariga que era tudo para ele, que ele amava, a rapariga que ele chamava de “a tal”, deixou-o. Eu sabia que o meu irmão seria incapaz de voltar a amar alguém daquela forma e sentia que ele não estava bem, mas nunca imaginei que ele fosse capaz de se deixar levar pelo chamamento do mar que se ouve no cimo desta falésia. No dia do seu funeral, lá estava ela, a Sara, uma amiga comum. Quando vi a Sara senti uma revolta ainda maior pelo meu irmão ter sido capaz de se matar. A Sara sempre amou o meu irmão desde que o conheceu, e antes de ele namorar com a Sophie, eu achava que eles iriam ficar juntos. Aproximei-me da Sara, tentei reconfortá-la, ambos sentíamos a mesma dor, porque alguém que amávamos nos tinha deixado. Reparei que ela tinha um papel na mão, mas não dei importância.

  A partir daí eu e a Sara andávamos sempre juntos, apoiávamo-nos quando tínhamos recaídas e parecia que juntos conseguiríamos suportar e ultrapassar a dor da perda. Passado um ano, voltei a estar presente num funeral. Passado um ano, presenciava novamente a partida de uma pessoa que amava. Passado um ano, era eu que tinha agora um papel na mão. Passado um ano, era eu que enfrentava sozinho a morte de mais uma pessoa que fazia parte de mim: a Sara. Depois de todos se terem retirado, ajoelhei-me ao pé da campa, como a Sara tinha feito um ano antes ao pé da campa do Bill, e tal como ela releu a carta do Bill, eu reli a carta que ela me tinha escrito.

“Querido Tom,

Quando leres esta carta já terei partido. Desculpa por te deixar, precisamente um ano depois da morte do teu irmão, mas já não aguentava mais. Olhar-te fazia-me recordar as feições do teu irmão. És tão parecido com ele… Sabes que desde sempre o amei, ele era único, fazia-me sentir especial. Quando ele me contou que namorava com a Sophie senti que me tinham tirado a esperança, mas quando ele morreu senti que me tiraram a vida e o coração. Apesar de me sentir bem ao teu lado, apesar de tu fazeres tudo para que ultrapassássemos esta fase, juntos, eu não fui capaz. Sei que me amas, soube no dia em que o teu irmão morreu, mas sei também que nunca te amaria dessa forma, pois pertenço para sempre ao teu irmão. E no fundo, tu sabias isso, por isso sempre ficaste do meu lado como amigo e nunca tentaste que eu te visse de outra forma.

No dia em que o teu irmão morreu, eu também recebi uma carta. Ele quis que eu soubesse os motivos dele. O teu irmão sentiu o que eu senti quando ele morreu. A Sophie roubou-lhe a esperança, despedaçou-lhe o coração. Sei que isso não devia ser justificação para a morte, mas a verdade é que viver sabendo que o dia de amanhã não será melhor do que o dia de hoje foi, é apenas esperar pelo dia do fim. Por isso, o suicídio é apenas o acelerar do processo.

Mas o teu irmão não quis apenas explicar-se queria também fazer um pedido. O Bill pediu-me que ficasse sempre do teu lado, que não te abandonasse. Segundo ele, juntos poderíamos fortalecermo-nos e conseguir enfrentar a perda. Houve momentos em que senti que podíamos. Mas o teu irmão enganou-se, não eras tu o mais fraco, mas sim eu. Eu é que não fui capaz de enfrentar a perda, apesar de todo o teu apoio. Sei que o Bill me pediu que ficasse do teu lado, mas não fui capaz e só peço que ele me perdoe. Quando o aniversário da sua morte se aproximou, senti que tinha chegado a hora de acabar com uma vida sem sentido. Desculpa estar a fazer-te passar por tudo outra vez, desculpa deixar-te, mas eu sei que serás capaz de tomar conta de ti. És mais forte do que pensas…

Agora sei que vou para um lugar melhor, mas estarei sempre a olhar por ti, tal como o teu irmão disse que estaria a olhar por nós… Não te peço que compreendas, apenas que aceites que não conseguia viver mais sem o teu irmão, mesmo que ele não me amasse. Não o ver era mais doloroso do que o ver com outra pessoa.

És uma pessoa especial, sempre foste. Sei que apesar de tudo o que passaste e que estarás a passar agora, podes ainda ser muito feliz. Não tenhas medo de procurar a tua felicidade, não tenhas medo de por um momento seres egoísta e esqueceres o passado. É isso que estou a fazer, fui em busca da minha felicidade, apesar de saber que estou a ser egoísta. Perdoa-me, é tudo o que tenho a pedir.

Amo-te meu rochedo e meu amigo.

Eternamente

Sara”

  Hoje passado um ano da sua morte, estou na mesma falésia onde perdi as duas pessoas que mais amei na vida. Sou o Tom Kaulitz, tenho 22 anos e neste momento, ouço o mesmo chamamento do mar que há dois anos o meu irmão ouviu e que há um ano a Sara ouviu. Hoje, também eu vou partir em busca da felicidade. Hoje voltarei a estar junto daqueles que mais amei. Mas ao contrário do que eles fizeram, não deixei nenhuma carta, porque não havia ninguém a quem deixar uma carta. Hoje, voltarei para junto daqueles que fizeram com que a minha vida tivesse significado. Hoje, vou acabar com uma vida que começou a deixar de ter sentido há dois anos e que perdeu totalmente o significado há um ano. Hoje, vou ao encontro do chamamento do mar, vou ao encontro do meu irmão e da Sara.        

        


sinto-me: Confused
música: 4 AM Forever

publicado por Morceguinha às 23:13
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